Ressonâncias
Desde tempos imemoriais que o ser humano procura uma explicação para um fenómeno que, talvez mais do que nunca, ainda hoje se observa na vida social e política: a confiança excessiva e o orgulho em demasia, reflectidos no desprezo por toda e qualquer opinião ou crítica construtiva vinda de outra pessoa ou grupo.
Nada de novo. De novo, apenas o facto de recentemente ter sido publicado em Inglaterra um livro intitulado, em tradução literal, “ Na doença e no poder: a doença nos chefes de estado ao longo dos últimos cem anos”, escrito por David Owen, neurologista e político, hoje com setenta anos, fundador do actual Partido Liberal Democrata e ex-membro de Governos de Sua Majestade. Owen terá estudado durante seis anos o “ cérebro” de muitos dos políticos do século XX , tendo concluído que existe uma doença que afecta alguns detentores de cargos políticos: a síndrome de Hubris. O termo hubris significaria, em grego, excesso de confiança e orgulho desmedido. Uma incursão pela mitologia grega conduzir-nos-ia ao herói Hubris, que uma vez alcançada a glória se deixou embriagar pelo êxito e com isso passou a acumular erros até ao dia em que encontrou Némesis que o fez cair em si e ver a realidade.
David Owen acha que este “ autismo” não é capricho pessoal mas sim um estado de doença. É que, as pressões e a responsabilidade que o exercício do poder implica, afectam a mente e o comportamento dos políticos. Nesta perspectiva, o poder intoxicaria de tal modo alguns detentores de cargos políticos que o sistema neuro -psíquico dos mesmos acabaria por ser afectado gravemente. Mesmo sabendo que esta doença não se encontra reconhecida pela Medicina, Owen aponta um conjunto de sintomas ( síndrome) facilmente diagnosticáveis: exagerada confiança dos líderes em si mesmos, desrespeito e desprezo pelos conselhos daqueles que os rodeiam e progressivo afastamento da realidade. Além disso, quando as decisões se revelam erróneas, não reconhecem o falhanço e continuam convencidos de que tomaram a decisão correcta.
A comprovar tudo isto, o autor enumera políticos como Hitler que, na sua opinião, é um bom exemplo de um governante completamente dominado pela Síndrome de Hubris. Outros nomes: Roosevelt, Mussolini, Margaret Thatcher, Mao Tsé-Tung, Tony Blair, Bush, Fidel, Mugabe, Saddam, Khadafy , Idi Amin…
Seguindo esta linha de pensamento, no caso português, quem incluiria aqui? Salazar? Jardim? Sócrates? Jaime Soares? Curioso que sobre Jaime Soares - como sabemos é presidente da Câmara de Poiares há 34 anos - se escreveu num blogue (http://acorda-vnpoiares.blogspot.com) que muito provavelmente este autarca estaria gravemente afectado por esta doença.
Neste livro, em que Owen retoma um ensaio publicado no ‘Journal of the Royal Society of Medicine’ acerca do conceito de Hubris, chama-se ainda a atenção para as consequências do declínio mental e físico de muitos governantes dos nossos tempos.
Suficientemente credível ou não, entendemos que esta obra não deixa de ser um bom pretexto para uma reflexão séria sobre a política e os políticos que nos governam, a nível mundial, a nível nacional e a nível autárquico. Reflexão que nos ajudará a estar mais atentos e mais sensíveis perante este fenómeno ancestral de abuso do poder por parte dos seus detentores.
E a cura para a síndrome de Hubris? - é legítimo perguntar. Por enquanto - diz Owen - ainda não existe cura. Por isso há que manter “uma vigilância constante” sobre os dirigentes -conclui.
David Almeida
In Jornal Nova Esperança
Edição Impressa
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